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trechosdelivros:

” As pessoas só observam as cores do dia no começo e no fim, mas, para mim, está muito claro que o dia se funde através de uma multidão de matizes e entonações, a cada momento que passa. Uma só hora pode consistir em milhares de cores diferentes. ”

- A Menina que roubava livros ( Uma Pequena Teoria).


Passei para bater-um-papocom o Céu. Tardei, mas à alguns conjuntos de horas, eu, finalmente, terminei de ler e reler aquele nosso livro. Agora satisfaço-me com a saudade de inalar cada palavrinha iluminada pelos teus rastros; foi tão leve, tão claro e, sem titubear, sua companhia fora a melhor que, em onze meses e uns quebrados, eu pude ter ao meu lado. Nas primeiras páginas, você, desinibido que só, fazia questão de clarear-se como nunca eu havia visto e, quando algumas coleções de horas já haviam passado, você se cobria com aquela manta escura, e me abraçava dentre a coberta e a lanterninha. Nesse meio tempo, o seu azul prateado foi a minha companhia, e me deixou à prova de tanta gente, tanta ignorância e palavras desnecessárias e eu, lhe agradeço por isso.
Se porventura o mesmo céu dos dias passados, vier à me cobrir de novo, eu juro que tento contar como foi. Vou fazer de tudo para guardar um pedacinho da lua e um fiozinho de sol, mas, se não tiver jeito, nem pote que caiba, eu faço questão de amontoar cada detalhe, cada luzinha e cor, pr’eu contar e recontar, centenas de milhares de vezes, até que ninguém descole da mente. Tem certos detalhes no qual eu faço questão de guardar só pra mim, só pra essa caixinha vermelha enterrada no peito, de tal forma, que eu poça me sufocar com esses meros detalhes, até eu transborde estrelas e arco íris. Aí eu volto pra dizer como foi. 
Por falar em retrocessos, acabei de me lembrar que o ano já está findando, e eu nem me lembro de tudo que fiz. Parece que vivi uma, duas semanas e algumas cordilheiras de dias. Eu passei o ano todo dormindo ou foi impressão momentânea? Juro pelo meu irmão, eu não me lembro de nem metade dos meu dias. Alguns, eu evito lembrar, mas poucos, pouco mais de dez, eu guardei bem guardado, na bolsa ao lado da caixa vermelha. Se eu saboreei cada um? Creio que não. Alguns passaram por mim como vultos, e outros só me deram vontade de fazer as unhas. Não tenho pretensão de passar o próximo ano assim. Quero mais fotografias, pelo menos, umas três dúzias.
Já está ficando tarde, e tu já está levando o sol consigo, eu vou esperar para revê-lo amanhã, no ápice da tua cintilância. Vim aqui mesmo para avisar que, de doze em doze horas eu roubo um tatinho de felicidade refinada por você, Céu. Não é por mal, tampouco vandalismo. É só um jeito melhor de marcar cada passagem tua, afinal, não terei isso por muito tempo. Ou terei, mas isso não me diz respeito. Então é só; até daqui a pouco, até o próximo livro. (escrevo-te) 

Passei para bater-um-papocom o Céu. Tardei, mas à alguns conjuntos de horas, eu, finalmente, terminei de ler e reler aquele nosso livro. Agora satisfaço-me com a saudade de inalar cada palavrinha iluminada pelos teus rastros; foi tão leve, tão claro e, sem titubear, sua companhia fora a melhor que, em onze meses e uns quebrados, eu pude ter ao meu lado. Nas primeiras páginas, você, desinibido que só, fazia questão de clarear-se como nunca eu havia visto e, quando algumas coleções de horas já haviam passado, você se cobria com aquela manta escura, e me abraçava dentre a coberta e a lanterninha. Nesse meio tempo, o seu azul prateado foi a minha companhia, e me deixou à prova de tanta gente, tanta ignorância e palavras desnecessárias e eu, lhe agradeço por isso.

Se porventura o mesmo céu dos dias passados, vier à me cobrir de novo, eu juro que tento contar como foi. Vou fazer de tudo para guardar um pedacinho da lua e um fiozinho de sol, mas, se não tiver jeito, nem pote que caiba, eu faço questão de amontoar cada detalhe, cada luzinha e cor, pr’eu contar e recontar, centenas de milhares de vezes, até que ninguém descole da mente. Tem certos detalhes no qual eu faço questão de guardar só pra mim, só pra essa caixinha vermelha enterrada no peito, de tal forma, que eu poça me sufocar com esses meros detalhes, até eu transborde estrelas e arco íris. Aí eu volto pra dizer como foi. 

Por falar em retrocessos, acabei de me lembrar que o ano já está findando, e eu nem me lembro de tudo que fiz. Parece que vivi uma, duas semanas e algumas cordilheiras de dias. Eu passei o ano todo dormindo ou foi impressão momentânea? Juro pelo meu irmão, eu não me lembro de nem metade dos meu dias. Alguns, eu evito lembrar, mas poucos, pouco mais de dez, eu guardei bem guardado, na bolsa ao lado da caixa vermelha. Se eu saboreei cada um? Creio que não. Alguns passaram por mim como vultos, e outros só me deram vontade de fazer as unhas. Não tenho pretensão de passar o próximo ano assim. Quero mais fotografias, pelo menos, umas três dúzias.

Já está ficando tarde, e tu já está levando o sol consigo, eu vou esperar para revê-lo amanhã, no ápice da tua cintilância. Vim aqui mesmo para avisar que, de doze em doze horas eu roubo um tatinho de felicidade refinada por você, Céu. Não é por mal, tampouco vandalismo. É só um jeito melhor de marcar cada passagem tua, afinal, não terei isso por muito tempo. Ou terei, mas isso não me diz respeito. Então é só; até daqui a pouco, até o próximo livro. 
(escrevo-te) 

513 notes
Eu choro e ouço todos dizendo passa, que vai passar. Mas esse é o problema, não quero que passe. Quero ser tua, quero que você seja meu. Quero poder sempre te amar e ouvir o quanto sou amada, quero poder acordar com você me enchendo de beijo ou simplesmente acordar pra ver o quanto é lindo você dormindo. Mas do meu lado, eu quero você do meu lado. Será que ninguém entende? Tudo bem, tem até uns carinhas legais me procurando por aí, mas nenhum deles sequer tem a capacidade de se parecer um pouquinho com você. Nenhum deles lembra seu jeito doce de encarar a vida e de me acalmar. Nenhum deles me faz rir como você faz. Agora vocês me entendem? Agora sabem porque eu choro? Porque não quero que passe. Eu quero poder acreditar que aquela sua jura de amor eterno é verdadeira.

— Caio Fernando Abreu (via distorcido)

364 notes
É que fui humana. Taí o problema. Te passei a imagem de fraca, frágil, sonhadora e tu me machucaste, feriste, mas sim, a culpa foi minha. Te abri a porta quando chovia e tu, com inquietação, batia à minha porta. Recebi as flores que me deste, eram lindas por sinal, mas pena, sem sentimento algum. Limpei as lágrimas em sua frente quando balbuciava palavras bonitas para mim, fui fraca, eu sei. Deixei escapar um “eu te amo”, e criei raízes para nós dois, preparei o arado para que plantássemos nossa vida, deixei escapar o que sentia e aliviava também; o amor. Mas fui tola, sabia que aquilo não passaria de momentos e sim, me arrependo; das flores que recebi, das palavras acariciadas de amor que lhe falei, das lágrimas que desceram quando falavas lindas e falsas palavras de amor, ah meu bem, te abri a porta, entraste, desajustaste, foste e hoje, estou assim, sozinha, mais fraca, mais frágil e bem, bem mais humana.

Igor Pires (via polissemias)

A gente se acostuma a qualquer hábito, a qualquer sabor, ao primeiro perfume que nos recebe, ao último toque, àquele programa que sempre reluz na tela da televisão em determinada hora, todos os dias. A gente sempre se acostuma. Se envolve. Se aceita, por mais desinteressantes que sejamos. É lei, e já foi aprovada. No começo, certamente, faltará algum doce, o açúcar escorregou e, de fato, você encolherá no primeiro canto infinito. Mas, como de costume, haverá um sábado, em que a luz do sol surrará sua face, mas - não me pergunte o porquê -, você não implicará com os raios por terem atingido-te, ou pela lua virar as costas e, de muda que é, se enroscará mais ainda na coberta, e prender, tão bem prendido, os olhos no sol que, por generosidade divina, ele sorrirá pra você. Logo, você há de levantar tão realizada, tão você, tão completa e viva, que aquele açúcar que estava lá no fundo, quase desintegrando, escorregando pelas bordas, voltará ao seu ponto de partida. Você desencolherá e, de vez em quando, o mesmo sol daquela manhã te visitará de novo. Quantas vezes fora preciso. 
É mais ou menos assim. Não há maneiras de guerrear contra as ordens naturais, contra o sol que há de se virar e mostrar o rosto, bem como não conseguimos misturar óleo e água, é impossível que nenhuma angústia se cesse, nenhum sorriso se abra de novo. É impossível querer ser cem por cento atiçada se, na maioria das noites, você dispensa os sonhos para matutar coisas do tipo meu-cabelo-podia-ser-liso ou minha-pele-tem-espinhas-de-mais. Esnobando a lua - como se houvesse jeito de sermos melhores que ela. Não há jeito.
Só não esqueça de anotar no seu manual de bolso, a semelhança entre nós e os carrosséis; coloridos, cheios de vida, fascinantes, mas, não está continuamente lá em cima, vivemos subindo-descendo, ora estamos ali, perto do céu, encima de um cavalo branco, guardando estrelas no bolso. Outrora você está deitado, pedindo à céus e terras um cafuné, engolindo constelações, sufocando-se por gotículas mal desenhadas, emoldurando uma vida inteira no teto escuro. É isso -ou quase isso. Não há um porquê. Uma explicação lógica de ‘como a vida é flexível’ e, muito menos, respostas para perguntas como ‘o que está acontecendo?’ e afins. Não há respostas quando o assunto é a vida. Sentimentos.  Emoções. E o íntimo do nosso infinito. 
A minha dica, é basicamente essa: Parar de se controlar. Não há motivos para se perguntar tanto, para agir como quem-não-quer-nada. Você sempre quer algo. Por mais leve que seja, nós, sobreviventes, sempre queremos algo. Um doce, uma braço, uns dedinhos de prosa, uns afagos a mais… Sempre. E não há controle sobre isso, não se pode controlar nosso subconsciente, nossas intenções mais ralas e distorcidas, por mais que elas estejam perdidas aí dentro, elas não foram embora. E como eu ia dizendo, a gente se acomoda tanto, aceita tanto o fato de sermos medianos, que ás vezes, nós, tampouco seguimos o que temos vontade ou o que vier na telha. Ás vezes é bom dar uma viajada, esquecer um pouco das últimas notícias e da previsão do tempo. Ir ao centro da terra. Subir numa árvore sem nome. Morar em seus castelos de areia. Felicitar-se com um bocadinho de sorrisos amontoados. Quebrar e regenerar suas próprias asas. Ir e vir de qualquer jeito. Do melhor jeito possível. Até que você se acostuma, e deteriora a ideia -insolente- de virar as costas para a Lua.(escrevo-te) 

A gente se acostuma a qualquer hábito, a qualquer sabor, ao primeiro perfume que nos recebe, ao último toque, àquele programa que sempre reluz na tela da televisão em determinada hora, todos os dias. A gente sempre se acostuma. Se envolve. Se aceita, por mais desinteressantes que sejamos. É lei, e já foi aprovada. No começo, certamente, faltará algum doce, o açúcar escorregou e, de fato, você encolherá no primeiro canto infinito. Mas, como de costume, haverá um sábado, em que a luz do sol surrará sua face, mas - não me pergunte o porquê -, você não implicará com os raios por terem atingido-te, ou pela lua virar as costas e, de muda que é, se enroscará mais ainda na coberta, e prender, tão bem prendido, os olhos no sol que, por generosidade divina, ele sorrirá pra você. Logo, você há de levantar tão realizada, tão você, tão completa e viva, que aquele açúcar que estava lá no fundo, quase desintegrando, escorregando pelas bordas, voltará ao seu ponto de partida. Você desencolherá e, de vez em quando, o mesmo sol daquela manhã te visitará de novo. Quantas vezes fora preciso. 

É mais ou menos assim. Não há maneiras de guerrear contra as ordens naturais, contra o sol que há de se virar e mostrar o rosto, bem como não conseguimos misturar óleo e água, é impossível que nenhuma angústia se cesse, nenhum sorriso se abra de novo. É impossível querer ser cem por cento atiçada se, na maioria das noites, você dispensa os sonhos para matutar coisas do tipo meu-cabelo-podia-ser-liso ou minha-pele-tem-espinhas-de-mais. Esnobando a lua - como se houvesse jeito de sermos melhores que ela. Não há jeito.

Só não esqueça de anotar no seu manual de bolso, a semelhança entre nós e os carrosséis; coloridos, cheios de vida, fascinantes, mas, não está continuamente lá em cima, vivemos subindo-descendo, ora estamos ali, perto do céu, encima de um cavalo branco, guardando estrelas no bolso. Outrora você está deitado, pedindo à céus e terras um cafuné, engolindo constelações, sufocando-se por gotículas mal desenhadas, emoldurando uma vida inteira no teto escuro. É isso -ou quase isso. Não há um porquê. Uma explicação lógica de ‘como a vida é flexível’ e, muito menos, respostas para perguntas como ‘o que está acontecendo?’ e afins. Não há respostas quando o assunto é a vida. Sentimentos.  Emoções. E o íntimo do nosso infinito. 

A minha dica, é basicamente essa: Parar de se controlar. Não há motivos para se perguntar tanto, para agir como quem-não-quer-nada. Você sempre quer algo. Por mais leve que seja, nós, sobreviventes, sempre queremos algo. Um doce, uma braço, uns dedinhos de prosa, uns afagos a mais… Sempre. E não há controle sobre isso, não se pode controlar nosso subconsciente, nossas intenções mais ralas e distorcidas, por mais que elas estejam perdidas aí dentro, elas não foram embora. E como eu ia dizendo, a gente se acomoda tanto, aceita tanto o fato de sermos medianos, que ás vezes, nós, tampouco seguimos o que temos vontade ou o que vier na telha. Ás vezes é bom dar uma viajada, esquecer um pouco das últimas notícias e da previsão do tempo. Ir ao centro da terra. Subir numa árvore sem nome. Morar em seus castelos de areia. Felicitar-se com um bocadinho de sorrisos amontoados. Quebrar e regenerar suas próprias asas. Ir e vir de qualquer jeito. Do melhor jeito possível. Até que você se acostuma, e deteriora a ideia -insolente- de virar as costas para a Lua.
(escrevo-te

Dentre um horário vago, ou em algum congestionamento é que vejo, ou mais precisamente, convivo com a vivacidade das palavras. Seja do seu modo mais singelo e delicado, ou com toda sua fúria e esperteza, quase como um soco, um tapa, um xingamento mal feito. Não podemos sequer tampar os ouvidos que, de vez em quando, já seria um grande feito. Mas não podemos. Logo, estamos nus, sem armadura ou munição. Estamos sós dentre um batalhão de palavras e estrofes. Que ora nos acalentam, nos protegem, dão-nos o mundo. Ora nos surram, nos tiram a mobília e o teto. Quase esfaqueiam. Quase. E súbitas como só elas são, nos embalam, encantam e em alguns casos, soam como música, sussurro, cafuné, colo de mãe. No que diz respeito à elas, só temos uma escolha : usá-las. Sou a favor da proliferação de boas palavras. Mas também do silêncio. De histórias da avó, de citações e onomatopeias. Sou a favor da magia que elas nos trazem, da riqueza e da matéria prima. Sou reticências; acarreto um sentido grátis, daquelas que alguns procuram e encontram, outros imaginam e, de imaginários que são, mudam-me o sentido.
Particularmente, não apoio os finais frágeis e óbvios, que, como num filme do cinema, não basta o começo para que possamos saber com quem a mocinha ficará. Gosto dos finais feitos de retalhos de palavras doces, miúdas, inimagináveis. Gosto de dizer ”não acredito” e sorrir embobada enquanto as luzes se acendem e os créditos aparecem rolando pela tela branca. Nada melhor que inalar um punhado de verbos e pronomes. Nada melhor que me embrulhar em flores e fragrâncias. Sentir minha pele absorver a cor e o sentido. As flores falam por si só, contam uma historia em cada pétala. Uma delicadeza, um desmoronamento, uma beleza pura e gentil. Tanto as flores, quando a vizinha idosa da casa ao lado, são capazes de, com a mesma intensidade, ouvir e apadrinhar-se de histórias trazidas pelo vento e jogadas no quintal. Perto das flores. Perto do pé de manga e das folhas de chá. Perto de onde a senhora guarda os conjuntos de palavras. As histórias. As almas perdidas que caem pela rua. As palavras que a leva para outro mundo. Para décadas antecedentes. Para onde ela queria estar, mas a ferrugem das pernas a impende. E a flor, sua fiel escudeira, não pronuncia palavra sequer, não a abraça nem desenferruja as pernas, mas, como num final inesperado, desses que dá gosto, surpreende com os mais belos cardumes de palavras que dela transbordam; os raios de sol afugentados dentre as pétalas, as milhares de borboletas que já usaram-na como cama ou quarto de hospede e, não menos importante, as milhares de mãos já tocadas e timidamente tingidas. A flor, que já viu por ela passar; sorrisos e desavenças, amores e partidas, lágrimas e palavras, absorver tudo de um jeito triunfal. 
E eu, como um grão, um cristal salino perto das flores, das avós e das palavras, não faço nada mais complexo ( ou necessário ) que usá-las. Em cada suspiro aliviado. Sem preguiça ou qualquer preconceito. Sou como qualquer outra pessoa; feita de locuções e adjetivos. Não temos domínio sobre a harmonia das palavras. Elas simplesmente rastejam e passam pelo corredor da garganta, sem saber que, em alguns pares de segundos, serão derramadas para fora e logo depois, reutilizadas, reorganizadas. Sem exceção. Até quando o dicionário for minúsculo e cauteloso. Até precisarmos substituir conjuntos de palavras. Até o último gole.
 

(escrevo-te) 

Dentre um horário vago, ou em algum congestionamento é que vejo, ou mais precisamente, convivo com a vivacidade das palavras. Seja do seu modo mais singelo e delicado, ou com toda sua fúria e esperteza, quase como um soco, um tapa, um xingamento mal feito. Não podemos sequer tampar os ouvidos que, de vez em quando, já seria um grande feito. Mas não podemos. Logo, estamos nus, sem armadura ou munição. Estamos sós dentre um batalhão de palavras e estrofes. Que ora nos acalentam, nos protegem, dão-nos o mundo. Ora nos surram, nos tiram a mobília e o teto. Quase esfaqueiam. Quase. E súbitas como só elas são, nos embalam, encantam e em alguns casos, soam como música, sussurro, cafuné, colo de mãe. No que diz respeito à elas, só temos uma escolha : usá-las. Sou a favor da proliferação de boas palavras. Mas também do silêncio. De histórias da avó, de citações e onomatopeias. Sou a favor da magia que elas nos trazem, da riqueza e da matéria prima. Sou reticências; acarreto um sentido grátis, daquelas que alguns procuram e encontram, outros imaginam e, de imaginários que são, mudam-me o sentido.

Particularmente, não apoio os finais frágeis e óbvios, que, como num filme do cinema, não basta o começo para que possamos saber com quem a mocinha ficará. Gosto dos finais feitos de retalhos de palavras doces, miúdas, inimagináveis. Gosto de dizer ”não acredito” e sorrir embobada enquanto as luzes se acendem e os créditos aparecem rolando pela tela branca. Nada melhor que inalar um punhado de verbos e pronomes. Nada melhor que me embrulhar em flores e fragrâncias. Sentir minha pele absorver a cor e o sentido. As flores falam por si só, contam uma historia em cada pétala. Uma delicadeza, um desmoronamento, uma beleza pura e gentil. Tanto as flores, quando a vizinha idosa da casa ao lado, são capazes de, com a mesma intensidade, ouvir e apadrinhar-se de histórias trazidas pelo vento e jogadas no quintal. Perto das flores. Perto do pé de manga e das folhas de chá. Perto de onde a senhora guarda os conjuntos de palavras. As histórias. As almas perdidas que caem pela rua. As palavras que a leva para outro mundo. Para décadas antecedentes. Para onde ela queria estar, mas a ferrugem das pernas a impende. E a flor, sua fiel escudeira, não pronuncia palavra sequer, não a abraça nem desenferruja as pernas, mas, como num final inesperado, desses que dá gosto, surpreende com os mais belos cardumes de palavras que dela transbordam; os raios de sol afugentados dentre as pétalas, as milhares de borboletas que já usaram-na como cama ou quarto de hospede e, não menos importante, as milhares de mãos já tocadas e timidamente tingidas. A flor, que já viu por ela passar; sorrisos e desavenças, amores e partidas, lágrimas e palavras, absorver tudo de um jeito triunfal. 

E eu, como um grão, um cristal salino perto das flores, das avós e das palavras, não faço nada mais complexo ( ou necessário ) que usá-las. Em cada suspiro aliviado. Sem preguiça ou qualquer preconceito. Sou como qualquer outra pessoa; feita de locuções e adjetivos. Não temos domínio sobre a harmonia das palavras. Elas simplesmente rastejam e passam pelo corredor da garganta, sem saber que, em alguns pares de segundos, serão derramadas para fora e logo depois, reutilizadas, reorganizadas. Sem exceção. Até quando o dicionário for minúsculo e cauteloso. Até precisarmos substituir conjuntos de palavras. Até o último gole.

 

(escrevo-te

Ora por outra alguém, como quem não que nada, passa pela sua frente. Como um sopro. Uma vidadinha sendo levada. E você, também como quem não quer nada, e as vezes não se atreve a querer. Vai caminhando seu olhar até algum estúpido te tirar de uma, quase, alucinação. Digo ”quase” porque as vezes o tempo é curto e, as vezes, indesejavelmente, você não estará sozinho, nem se quer com alguém que não se importe. Aí, meu caro, você vai se rastejando, até tuas pupilas se encontrarem com as desse tal alguém. Elas dilatam, e isso nem se quer fora algo voluntário, você nem se quer correu o olho para o sol. E, se como quem não nada, brotar um risinho abafado ou se a partir dali, você souber da existência de mais algumas cores, pode-se acalmar. Sentar um pouco. - Suco, café, ou uma água? Lhe ofereço porque sei que, de quando em vez, nós não temos controle da contracção da pupila, ou quem dirá das embolações que se passam à diante.
Como um esboço, uma imagem fora se formando em meio aos entulhos da sua cabeça. Uma figura quase completa. Também involuntária, diga-se de passagem. Eis que a noite vem chegando, como um vulto. E nesse meio tempo, sua cabeça fora ocupada por outras importâncias, algumas mais coerentes, outras nem tanto. Mas há um mísero e fútil fato: Você se desmanchará assim que se cobrir e a luz do abajur cessar. Pode anotar. Você de desintegrará, e de pouco em pouco, teus restos escorregarão pelo vértice da cama e, seja por sorrisos de mais, ou por um kit de incompatibilidades do dia-a-dia, você se desmoronará. Não estou sendo bruta, mas eu, como telespectadora de vidas alheias - e algumas vezes me atrevo a ver tudo do alto - só lhe conto o que, certamente, acontecerá ou aconteceu com alguns mortais. Mas, como já deve de ter ouvido:”Uma noite dura mais que a outra”. De fato, isso passará, seja na quinta-feira que vem, ou amanhã de manhã.
E se, por algum acaso, me vires observando os olhares atentos, não me julgue, nem se quer pergunte se perdi alguma coisa. Não consigo suportar ironias. Mesmo que, por mais imperceptíveis que forem esses olhares dilatados, irei sempre fuxicar um pouco, bisbilhotar o que se passa fora da minha janela e, de quase-invisível que sou, vou remexer e amolecer, de forma homogênea os corações imigrando por aí. Todavia, não se preocupe, não se deixe ser levada por algum sopro, mas se por descuido, fora, não se acanhe. Você é só mais um dentre um punhado de tantos outros.
(escrevo-te)

Ora por outra alguém, como quem não que nada, passa pela sua frente. Como um sopro. Uma vidadinha sendo levada. E você, também como quem não quer nada, e as vezes não se atreve a querer. Vai caminhando seu olhar até algum estúpido te tirar de uma, quase, alucinação. Digo ”quase” porque as vezes o tempo é curto e, as vezes, indesejavelmente, você não estará sozinho, nem se quer com alguém que não se importe. Aí, meu caro, você vai se rastejando, até tuas pupilas se encontrarem com as desse tal alguém. Elas dilatam, e isso nem se quer fora algo voluntário, você nem se quer correu o olho para o sol. E, se como quem não nada, brotar um risinho abafado ou se a partir dali, você souber da existência de mais algumas cores, pode-se acalmar. Sentar um pouco. - Suco, café, ou uma água? Lhe ofereço porque sei que, de quando em vez, nós não temos controle da contracção da pupila, ou quem dirá das embolações que se passam à diante.

Como um esboço, uma imagem fora se formando em meio aos entulhos da sua cabeça. Uma figura quase completa. Também involuntária, diga-se de passagem. Eis que a noite vem chegando, como um vulto. E nesse meio tempo, sua cabeça fora ocupada por outras importâncias, algumas mais coerentes, outras nem tanto. Mas há um mísero e fútil fato: Você se desmanchará assim que se cobrir e a luz do abajur cessar. Pode anotar. Você de desintegrará, e de pouco em pouco, teus restos escorregarão pelo vértice da cama e, seja por sorrisos de mais, ou por um kit de incompatibilidades do dia-a-dia, você se desmoronará. Não estou sendo bruta, mas eu, como telespectadora de vidas alheias - e algumas vezes me atrevo a ver tudo do alto - só lhe conto o que, certamente, acontecerá ou aconteceu com alguns mortais. Mas, como já deve de ter ouvido:”Uma noite dura mais que a outra”. De fato, isso passará, seja na quinta-feira que vem, ou amanhã de manhã.

E se, por algum acaso, me vires observando os olhares atentos, não me julgue, nem se quer pergunte se perdi alguma coisa. Não consigo suportar ironias. Mesmo que, por mais imperceptíveis que forem esses olhares dilatados, irei sempre fuxicar um pouco, bisbilhotar o que se passa fora da minha janela e, de quase-invisível que sou, vou remexer e amolecer, de forma homogênea os corações imigrando por aí. Todavia, não se preocupe, não se deixe ser levada por algum sopro, mas se por descuido, fora, não se acanhe. Você é só mais um dentre um punhado de tantos outros.

(escrevo-te)

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